
Dia de Festa
Por Ramon Bacelar
Um persistente aroma adocicado invadia as narinas e contribuía para uma atmosfera não totalmente apropriada para tão especial ocasião. Sombras de trajes formais, masculinos e femininos, adornavam e faziam coro com as rosas brancas e vermelhas: não se podia negar o extremo bom gosto dos arranjos e a finura de comportamento dos convidados. Salgadinhos e bebidas de todos os tipos eram intimidados por bocas e gargantas educadamente famintas, enquanto Kleenexes em seus caixões de papelão, como em uma fila de execução, aguardavam melancolicamente a hora do uso e descarte. Ao lado de um desses pequenos caixões de papelão, apoiado em pedestais de prata finamente adornados, um enorme caixão de madeira (provavelmente um parente distante dos pequeninos) consumia a atenção de dois velhos conhecidos.
-Bonito caixão.-Falou um.
-É mesmo.-Respondeu o outro.
-Uma pena...
-Que?
-Tanto dinheiro gasto para acabar debaixo da terra.
-Concordo.
-Melhor seria investir num Hermitage La Chapelle.
-Ou num lote de Haut Brion.
-Sangue de Boi...fazer o que?-Falou de cabeça baixa.
-Já olhou pro terno?
-Infelizmente...tsss...tsss...tsss... dinheiro pros vermes.
-Quero ser enterrado nú.
-Eu também.
Um barulho semelhante a folhas secas e um leve balanço no caixão se fez ouvir .
-E os sapatos nem se fala.
-Não vi, são de marca?
-Franceses.
-Uhuúúúúú...eu uso Vulcabrás... e estou vivo. Se os vermes tivessem um pingo de tino comercial...
Por esta vez o barulho ecoou por todo o salão e com um olhar mais atento fazia-se notar os riscos do pedestal no espelhado linóleo. Como veículos com faróis altos em dias de chuva, olhares estupefatos se cruzaram e numa inútil troca de ofuscação, nada concluíram.
-Como é possível?
-É mesmo.
-Com tanta gente faminta....
O amigo acariciou a pança.
-Eu por exemplo-Concluiu.
-E a cueca italiana?
-Vai dizer que você sabe?
-Custou nada mais, nada menos...
Com um estrondo que incomodou os espaços vazios e perfurou os tímpanos com uma estridência que parecia ter brotado de uma criação Dantesca, o pobre defunto, nauseado pelo adocicado odor nauseabundo das rosas, enjoado pelo fedor de fritura barata e indignado com tamanha falta de respeito dos dois amigos para com seu recente estado de não-pessoa, levantou-se, ajeitou a domingueira e com os lustrosos franceses, atravessou o salão e foi morrer em outro lugar.
FIM
Ramon Bacelar é contista, crítico e ensaísta. Mantém um blog sobre cinema, quadrinhos, literatura e cultura underground (Maquinário da Noite: www.maquinariodanoite.blogspot.com) é colaborador do site Teia Cultural (www.teiacultural.com.br) e publica contos no Recanto das Letras http://recantodasletras.uol.com.br/autores/ramonbacelar e em seu site pessoal, Miragens Ofuscantes: http://www.miragensofuscantes.blogspot.com


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