
Um lugar bem arejado, sem paredes, sem toldos ou cobertura, bem amplo e aberto, conforme me autoriza - e não faculta - um resquício de lei.
Mas nem mesmo este pequeno-amplo abrigo, que a lei a contragosto me confere, é suficiente a me dar um quê de tranquilidade, porque é bem mais fácil consumir, escancaradamente, sem ser incomodado, um generoso volume de pedrinhas de craque na rua, que dar uma fumadinha em lugar inofensivo, ainda que a gente - fumante – se esconda de medo e de vergonha.
- Não sabia que você gostava dessa “coisa” – disse-me uma colega, surpresa e ultrajada, ao descobrir que eu era um pária viciado. Articulou arrogantemente, com a autoridade de quem sabe bem repreender um doente social e, melhor ainda, de quem gosta de reprimir coisas abomináveis, mesmo que não sejam, naturalmente, de sua conta.
Até as pessoas mais liberais, mais cabeças-feitas, assumem esta postura inquisidora quando me veem fumando, mesmo quando eu, em minha intimidade e solidão, não estou transgredindo lei alguma, muito menos violando pulmões especialmente sensíveis, ou narizes de virgens impolutas.
É interessante que ninguém está nem aí para a saúde de ninguém... Sim, mas o desinteresse na hemorróida ou diabetes alheias vai até o momento em este ninguém acende, para a infelicidade geral da Nação, um mísero cigarrinho. Nesta hora, todo mundo fica douto e eloquente, preocupadíssimo com o estado de higidez alheia. Vira um grave e austero aconselhador. Vira Ministro da Saúde, sabedor profundo dos malefícios do cigarro. Mais que ninguém. Se é ex-fumante, confessa que fumava três ou quatro carteiras de cigarro por dia, o que é uma grande mentira. Todo mundo baixa José Serra, ainda que seja petista convicto e comunista de carteirinha.
Por falar nisso, de certo amigo meu, verdadeiramente comunista de carteirinha, e entusiasta de Fidel, fujo como o diabo arreda da cruz para não ser severamente admoestado. Nem Fidel ou Guevara, com seus charmosos charutos revolucionários, sedutores, nos lábios, me salvam de uma boa reprimenda.
- Não sabia que você gostava dessa “coisa” – disse-me a colega, como se ofendida por um grave insulto. Isso mesmo: meu hábito de fumar a insultava profundamente.
É claro que eu nada respondi. O bom dos bons (!?) fumantes é que eles ainda são educados. Abnegados, procuram não incomodar ninguém, não mandam – como deveriam – ninguém tomar naquele lugar, e têm, até, sentimento de culpa, o que não é outra coisa senão o que querem, em última instância, impingir-lhes os algozes inquisidores. Mas, em compensação, são sempre vigiados, patrulhados, importunados, incomodados, censurados onde quer que estejam ou não estejam. O fumante vive a democracia até o momento em que não acende o cigarro; a partir daí, respira os benévolos ventos assépticos da Coreia do Norte.
Pessoas que, por sólidos princípios e tradição, não se metem em vida alheia, perdem todo o escrúpulo de uma vida toda quando me encontram fumando. Acho que lhes faço muito mal ao caráter, infelizmente. Neste ponto, penitencio-me verdadeiramente.
Hoje, já não há lugar para a vigilância ideológica, que era tão cara – a menina dos olhos – dos intelectuais de outrora. Afinal, como manda o figurino, hoje pensa-se sempre e sempre igual e igualmente, e os deslizes são mínimos e insignificantes: os retardados, que ousam pensar por si próprios, sempre existem, e sempre existirão... mas, felizmente, são tão anódinos quanto água de beber. Todavia... o patrulhamento social... Ah, este é bem bacana, avançado e porreta. O controle sorrateiro e insidioso das liberdades alheias... Ah, este é melhor, mais bacaninha e porreta ainda. O suprassumo pós-moderno de nossa felicidade, o sublime orgasmo do Torquemada que existe em cada um de nós.
Sinto falta das boas e velhas censuras maledicentes das idosas fofoqueiras....


Sempre com um bom texto para que possamos nos deleitar, não é Velho john???!!!
ResponderExcluirótima crônica! Convido-te a ler "por que Poe e Lovecraft não ganhariam um milhão"
ResponderExcluirhttp://rogsildefar.blogspot.com/2010/12/por-que-um-poe-ou-um-lovecraft-nao.html
O texto nos remete ao patrulhamento ideológico, recheado de hipocrisia, daqueles que,induzidos pelas convicções sociais condicionadoras do comportamento humano, não se furtam em tecer opiniões e conselhos, quase sempre repulsivos à conduta alheia, como se a cada um não fosse permitido o livre arbítrio, de agir em sintonia com a licitude, tal qual se reporta o tema objeto da crônica. Se opiniões alheias fossem impositivas, provavelmente estariamos fadados a restringir o raio de ação do homem e abortar a criatividade do intelecto humano, uma vez que carros poluem muito mais que o fumo, açucar provoca diabetes, sal, pressão alta, bebidas alcoólicas destroem células e assim por diante. Se a falsa preocupação , que emana das mentes das vestais plantonistas, não tivesse o condão de limitar o direito de outrem , possivelmente seria encetada em seu favor. ENQUANTO ESTIVERMOS VIVOS, VIVA A LIBERDADE !.
ResponderExcluirEm aditamento ao comentário pretérito, em que endossei a idéia contextualizada da crônica, devo ressaltar a clareza,a qualidade e fluidez textual, ensejadoras de uma delícia literária. Aguardarei outras crônicas.
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