terça-feira, 21 de junho de 2011

TEM PÁTRIA O CAPITAL ???

Por José Manuel Barbosa Álvares

Fonte: http://despertadoteusono.blogspot.com


Atribui-se ao liberalismo o axioma que diz “o capital não tem pátria” mas há vezes em que tenho muitas dúvidas disso. O que fez crescer o mundo ocidental desde o século XV foi, com certeza, a liberdade económica e aproveitar tudo aquilo que tivesse valor para fazer prosperar os povos e as pessoas, mas...

Perguntar-se-á o leitor... e a que vem esta reflexão? Dir-vos-ei:
Quando uma pessoa que se diz de pensamento liberal e se acredita inteligente, tem a pouca vergonha de dizer que a existência de quatro línguas no senado é motivo de preocupação pelo gasto económico e porque estamos numa crise importante que nos pode levar à falência, acabo perguntando-me se o pessoal está neste mundo por ver passar as horas o é que acredita na quadratura do círculo.

Conta-se-nos que o galeguismo é ideologia. O estado neutro e ideal por desprovido de carga ideológica é viver em castelhano. O galeguismo é de pailães ou de “bloqueiros” ou no melhor dos casos de “culturetas” que professam o “freakismo” militante. Isso é como nos educam os poderes neste nosso País. Há gente “inteligente” que assume esse pensamento com toda a inchação de peito e com toda a vaidade de quem se pensa na posse da verdade absoluta revelada pelas mais altas instâncias celestiais. A essa gente parece não poder-se-lhe levar a contrária porque acabam qualificando a um de qualquer cousa menos de bonito. Isto não ajuda muito ao debate porque acabamos o assunto de tal jeito que é um que contradiz o que é o radical ou anormal e não ao invés.

O mais surpreendente para mim é que esse estúpido pensamento é defendido muitas vezes, não por pessoal humilde e iletrado (que também! dito seja de passagem) mas por gente que passou pela universidade, tem uma boa cultura aparente e se mexe pelo mundo com certa agilidade. É essa gente que diz que lhe impõem o galego cantando como ararás o mantra repetido até o cansaço pelo cavernarismo filomadrileno.

Como é que não temos consciência de que qualquer língua é mais um recurso económico? Uma língua é em muitos casos uma variável das diferenças salariais e sociais, pode ser base para o comércio e a transação dentro duma região pequena ou mesmo entre países afastados por oceanos. A língua, toda língua, é uma industria e como tal contribui ao PIB dum país por muito pouco que seja e por muito pequena que seja a língua, mas sempre gera riqueza.

As línguas geram milhões de euros e milhões de postos de trabalho. Se essas línguas são línguas francas ou usadas em vários países, esses milhões podem se multiplicar, como também os seus PIBs e o número de postos de trabalho gerado por elas.

Se nos dermos uma volta pelas utilidades duma língua veremos que as possibilidades são infinitas porque desde o ensino que é um traspasso de informação, em princípio básica, mas com o tempo acaba tornando-se científica, técnica, económica, jurídica, política, psicológica, jornalística, etc... passando pela utilidade para as empresas de correios, telecomunicações com o seu mundo informático tão presente na vida do ser humano hoje, a publicidade, recursos de empresa, finanças, matérias primas, espírito empreendedor, turismo (gente que vem para apreender o idioma...), cultura e património, negócios, peso político internacional... Tudo isto são só algumas das muitas possibilidades que se me ocorrem para uma língua.

Algumas línguas são transmissoras mesmo de cultura ideológica, como o russo (Lenine, Bakunin, Kropotkin...), ou o castelhano (autores cubanos, nicaraguanos ou venezuelanos ...), língua da ciência (os matemáticos russos dão aulas aos chineses porque a língua chinesa tem limitações ao respeito...), língua franca (dos países ex-soviéticos entre eles), língua de negócios como o português (Petrobrás...), inglês (Ford...), castelhano (Repsol...), francês (Citröen...), alemão (Volkswagen...), etc...

Repare o leitor que qualquer língua pode gerar riqueza em todo o caso. Qualquer uma. Grande ou pequena, cada uma em função do seu valor nacional e/ou internacional sempre ela terá um forte conteúdo económico. A comunicação linguística é um mercado e ainda um formador de mercados de bens e serviços salientando no mundo de hoje a publicidade, tanto a informativa como a persuasiva. As línguas influem nos custos de produção das empresas gerando custos de informação e influindo de forma determinante na demanda dos produtos de consumo e nos próprios preços dum produto.

Tudo partindo da ideia de que uma língua não tem custos de produção já que ela é criada através dos séculos e durante a história pelo povo que não investe dinheiro na sua conformação; os seus recursos são inesgotáveis como o mar, o oxigénio e não pertence a nenhum magnate poderoso nem a grupos de pressão ou de contestação. A língua valoriza-se mais quantos mais utentes tem, daí o bom investimento que supõe qualquer processo de normalização e multiplicação dos seus falantes. Aliás é um bem que não se pode nacionalizar porque já está nacionalizada e é impossível privatizá-la pois a sua função é permitir a comunicação entre as pessoas e reduzir por isso os custos de qualquer transação, daí também a bondade do plurilinguísmo contrário à ideia monolinguísta da Espanha castelhana, tanto interiormente como exteriormente.

E o melhor de tudo isto do que falamos é que os galegos temos uma variante linguística reconhecida por todos os linguistas -menos os pagados pela “Xunta”-, como uma variante duma das línguas mais sucedidas da humanidade. A quinta em número de falantes, a terceira europeia e a segunda latina, com um país de referência como o Brasil como potência emergente e de futuro. Essa língua nasceu no nosso País e foi levada pelo mundo nas descobertas portuguesas. Rechaçar, odiar ou simplesmente não querê-la é tão absurdo como rechaçar o pão em horas de fome. Simplesmente absurdo. Esta nossa língua que nós conhecemos com o nome de galego e no mundo é conhecida como português gera o 17 ou o 18% do PIB de Portugal, entre o 13 e o 17% do PIB do Brasil em alça e o 3% do PIB mundial.

É essa “Xunta de Galicia” governada quase eternamente por um mesmo poder político desde há mais de 30 anos a que leva à morte a língua dos galegos com uma política linguística "elaboracionista" e quase monolítica desde os anos 80, que tem como resultado a progressiva extinção da nossa língua seguindo uma metodologia etapista e letal cada vez que o povo galego introduz um papel de voto favorável ao "statu quo". Esse poder político retroalimentado com a ignorância e a ignomínia faz que se perpetue o problema e a necrose “ad eternum” para completar a solução final por eles desejada.

Se eu acreditasse que o poder galego existente desde 1981 fosse bem intencionado e com um perfil liberal como é o que vende, pensaria que como o capital não tem pátria existiria a possibilidade de ver como a nossa língua teria futuro e o nosso povo também, beneficiado pela condição de língua extensa e útil. Mas o facto de que estejam dispostos a tratar a língua dos galegos como a tratam, dá-me a pensar que estão a deitar pela janela milhões e milhões de euros, muitíssimos postos de trabalho e muitíssimas hipóteses de criação de empresas e de negócios; dá-me que pensar que o seu intervencionismo e a sua irresponsabilidade não fazem esse poder galego um poder liberal que pense na criação de riqueza, por isso ou é que não são muito inteligentes, hipótese na que não acredito, ou é que a perfídia malvada com a que nos tiram a vida, a dignidade, a prosperidade e nos fazem passar por parvos no-los revela como autênticos lobos com pele de ovelha e depredadores que sim têm claro qual a sua pátria e qual a nossa. Em todo caso pátrias diferentes ainda que nos façam pensar que é a mesma. Porque...vamo-nos parar a pensar: Só a um ignorantese lhe ocorreria dizer que investir dinheiro na nossa língua é um gasto; só a umférrido e duro se lhe ocorreria desvalorizá-la; só a um imbecil e obscuro se lhe ocorreria levar uma política linguística que derivasse na desaparição duma fonte de riqueza tão absoluta e só se lhe ocorreria queixar-se de que lhe impõem o galego a um que não entende, não.

Por todo isto e por muito mais acredito em que para eles o capital sim tem pátria...e essa pátria parece não ser a nossa.

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José Manuel Barbosa Álvares é:

Membro de Número de AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa)

Membro do Conselho Consultivo do MIL (Movimento Internacional Lusófono)

Diretor Administrativo do IGEC (Instituto Galego de Estudos Celtas)

Sócio da AGAL

Integrante do Clube dos Poetas Vivos.

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